Em dois dias diferentes, mas na mesma semana, apliquei dois exames de avaliação cognitiva e tenho a dizer que foram coisas bastante divertidas. Em certa altura, é necessário que a pessoa repita a frase "O rato roeu a rolha". Desengane-se quem pensa que esta seria uma das perguntas mais fáceis.
Resposta I
- Diga “O rato roeu a rolha”.
- Da garrafa.
- Não. Diga só "O rato roeu a rolha".
- Da garrafa.
- Não. Só quero que diga "O rato roeu a rolha".
- Da garrafa. *gargalhadas*
Resposta II
- Diga “O rato roeu a rolha”.
*gargalhadas*
- D. G.?
*gargalhadas*
- “O rato roeu a rolha”.
*gargalhadas*
Estas duas situações são o objetivo dos nossos políticos.
O presidente da república enquadra-se em pleno na situação II. Ora depois da polémica (não-polémica que cada um sabe de si) das pensões do chefão, o PR anda numa de tentar a reabilitação da sua imagem pessoal. Por isso, afirma o óbvio: "É preciso olhar às pessoas". Isto no contexto de afirmar que é impossível impor mais austeridade. E faz a vontade ao povo que repete três vezes em cinco minutos que “ninguém olha por nós”, “não temos dinheiro para isto”. Quando disse que não tinha dinheiro, foi o fim da macacada. Quando diz que os outros não têm dinheiro, a macacada começa e dá mesmo vontade de rir. É que um rato naturalmente rói. E pode ser a rolha que, obviamente, está para a garrafa. Afirmar o que é óbvio é uma estratégia política brilhante. E faz-me ficar bem mais bem-disposto.
Já ao Secretário de Estado da Cultura assenta-lhe como uma luva a resposta II. Num país que se quer regrado, onde a austeridade manda mais que o governo, há um grito de liberdade, muito similar ao do Ipiranga, que grita “escrevam como quiserem”. Eu aposto que baixinho Francisco Viegas deve ter dito “mas não me chateiem os cornos que eu estou de direta”. Aqui mora o livre arbítrio, cada um sabe de si e escreve ao seu próprio jeito. O que é que este país quer mais? De um acordo ortográfico cheio de asneirolas e afins, chegamos a um acordo que nem é bem um acordo. O que se acorda é que cada um faz o que quer. Por isso, “o rato roeu a rolha” passa-se a ser “da garrafa”. Cada um sabe de si. E o PR sabe de todos e afirma-o com muita classe.
O que queremos mais, nós? Temos um PR que é tão solidário connosco que seria impossível pedir mais e somos livres de escrever como quisermos. Acho que afinal já não vou emigrar.